Tenho estudado a felicidade humana há algum tempo. Não no sentido de procurar uma fórmula para ensinar alguém a ser feliz, mas justamente no sentido contrário: tentar entender o que faz uma vida ter sentido.
O que nos torna felizes? O que permanece quando dinheiro, status, juventude e reconhecimento deixam de ser tão importantes? A felicidade está nas grandes conquistas ou nas pequenas coisas que aprendemos a valorizar ao longo da vida?
Foi pensando nessas perguntas que conheci Dona Lourdes.
Aos 99 anos, prestes a completar 100, ela me recebeu para uma conversa sobre sua vida. E talvez uma das coisas mais bonitas da nossa conversa tenha sido perceber que felicidade não aparece necessariamente em uma vida fácil.
A vida de Dona Lourdes esteve longe de ser fácil.
Ela perdeu a mãe aos seis anos. Cresceu em uma família pobre, trabalhando desde criança em fazendas. Plantou arroz, feijão, milho, algodão, mandioca e amendoim. Trabalhou na roça, em casas de família e em colégios. Viveu no interior, passou anos no Rio de Janeiro e depois em Minas Gerais.
Teve dificuldades para estudar e praticamente precisou aprender a ler sozinha, juntando letras até descobrir como as palavras funcionavam.
Também conheceu o preconceito.
Quando jovem, chegou a tentar entrar para uma congregação religiosa, mas ouviu que não poderia ser freira por ser negra. A frase ficou gravada em sua memória por décadas.
E, ainda assim, quando perguntei se era feliz, ela não hesitou:
“Eu sou feliz. Muito feliz.”
A felicidade não apaga uma vida difícil
Essa talvez tenha sido a primeira coisa que mais me chamou atenção.
Dona Lourdes não romantiza sua história.
Ela diz claramente que sofreu. Que sua vida foi difícil. Que gostaria de ter estudado mais. Que sente falta daquilo que não pôde viver.
Mas sua narrativa não é construída apenas a partir das coisas que lhe faltaram.
Ela fala dos filhos e dos netos como um tesouro. Fala da fé. Fala do carinho que recebeu no colégio. Lembra com emoção de um pequeno presente de Natal que ganhou quando era jovem: um lencinho acompanhado de uma mensagem sobre suas lágrimas pela mãe que havia perdido.
Décadas depois, aquela lembrança ainda estava viva.
Isso me fez pensar sobre uma coisa importante: talvez felicidade não seja ausência de sofrimento.
Talvez seja também a capacidade de construir significado apesar dele.
“Tudo era ótimo”
Em determinado momento da conversa, perguntei como era sua infância.
Ela contou sobre a vida nas fazendas, o trabalho pesado, a simplicidade, a falta de recursos e até os momentos de medo — como a noite em que uma onça apareceu perto da casa onde sua família morava.
Mas, quando perguntei o que a fazia feliz quando era criança, ela falou dos passarinhos.
É uma imagem que ficou comigo.
Uma menina que viveu pobreza, trabalho e tantas limitações encontrava alegria observando os pássaros.
Hoje, aos 99 anos, ela continua fazendo algo parecido.
Cuida de plantas. Cuida de animais. Coloca comida para os passarinhos que aparecem em sua janela. Costura. Faz colchas de retalhos.
Ela não fala de felicidade como uma grande teoria.
Ela simplesmente vive algumas pequenas coisas que parecem lhe fazer bem.
Conhecimento também pode ser felicidade
Outra resposta de Dona Lourdes me surpreendeu.
Perguntei se ela se considerava mais feliz hoje do que quando era jovem.
Ela respondeu que sim.
E explicou por quê:
“Eu conheço mais coisas, tenho mais entendimento.”
Essa frase talvez mereça ser pensada com cuidado.
Estamos acostumados a associar juventude à felicidade. A imaginar que felicidade está em ter mais tempo pela frente, mais possibilidades, mais experiências.
Dona Lourdes aponta para outra direção.
Para ela, envelhecer trouxe conhecimento e compreensão.
Talvez exista uma felicidade que só aparece quando conseguimos olhar para a própria história com alguma distância.
Quando entendemos que nem tudo estava sob nosso controle.
Quando percebemos que algumas dores fizeram parte da nossa trajetória, mas não precisam definir toda a nossa história.
O que realmente precisamos para ser felizes?
Vivemos em uma época em que felicidade se transformou quase em um produto.
Existem cursos para ser feliz, aplicativos, métodos, livros, retiros, suplementos, viagens, experiências e milhares de conteúdos ensinando como alcançar uma vida melhor.
Ao mesmo tempo, nunca tivemos tantas possibilidades de comparação.
Podemos acompanhar diariamente a vida de centenas de pessoas. Ver suas viagens, seus relacionamentos, seus corpos, suas casas, seus negócios e suas conquistas.
E talvez isso esteja criando uma situação curiosa: temos cada vez mais recursos para buscar a felicidade e, ao mesmo tempo, cada vez mais motivos para acreditar que estamos ficando para trás.
Dona Lourdes viveu praticamente o oposto disso.
Ela cresceu sem internet, sem redes sociais, sem televisão durante boa parte da infância, sem a quantidade de informação que temos hoje.
Sua preocupação, naquela época, podia ser uma onça rondando a casa.
A nossa pode ser uma mensagem que não foi respondida, uma publicação que não recebeu curtidas ou a sensação de que alguém está vivendo uma vida melhor que a nossa.
Não quero concluir que o passado era melhor.
Dona Lourdes mesma reconhece que sua vida foi difícil.
Mas talvez sua história nos ajude a fazer uma pergunta que considero fundamental:
será que estamos complicando demais a ideia de felicidade?
Uma investigação que está apenas começando
É por isso que tenho me dedicado a estudar a felicidade humana.
Como jornalista, quero ouvir histórias, investigar comportamentos, conversar com pessoas e buscar diferentes perspectivas.
Como psicanalista, quero olhar para aquilo que existe por trás das nossas escolhas: nossos desejos, medos, expectativas, frustrações, comparações e a necessidade de sermos reconhecidos.
Não quero encontrar uma definição única para felicidade.
Quero descobrir como pessoas diferentes constroem uma vida que consideram boa.
Dona Lourdes me ensinou, aos 99 anos, que uma vida pode ter dor e ainda assim ser considerada feliz.
Que podemos carregar algumas feridas durante décadas sem deixar que elas sejam a única coisa que contamos sobre nós mesmos.
Que filhos, netos, fé, plantas, animais, costura e uma janela cheia de passarinhos podem ocupar um espaço enorme na construção de uma vida feliz.
E, principalmente, que talvez a felicidade não esteja necessariamente em ter uma vida perfeita.
Talvez esteja em conseguir olhar para a própria vida — com tudo o que ela teve de bom e de ruim — e ainda conseguir dizer:
“A minha vida foi boa. Foi muito boa. E é até hoje.”
Talvez seja por aí que eu queira começar esta investigação.