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Por que devemos transformar a colaboração em legado após a pandemia

As pequenas empresas foram duramente impactadas pela crise – mas também foram alvo de iniciativas de contribuição e doação. Essa pode ser a chave para as mudanças pós-pandemia

Somos um país de empreendedores – essencialmente, de pequenos negócios, que correspondem a mais de 90% dos estabelecimentos privados no Brasil. O título de maiores empregadores brasileiros também é das PMEs, que geram mais da metade dos postos de trabalho do país. Se a força dessa parcela tão significativa da nossa economia ainda não estava clara, neste momento de pandemia ela ficou evidente.

Com menor fluxo de caixa, as pequenas empresas são as mais afetadas na crise. O Brasil já registrava altos índices de desemprego em janeiro deste ano. Em maio, contudo, chegou a um índice histórico, afetando mais de 12,7 milhões de pessoas e com fechamento de 7,8 milhões de postos de trabalho em um trimestre, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Observando esse cenário de extinção de tantos empregos, que atingiu principalmente as PMEs, podemos concluir que apoiar pequenos negócios não é uma questão de benevolência, e sim de sobrevivência para a economia.

Divido com Natalia Lazarini e André Mainart a liderança da Confraria do Empreendedor, uma comunidade de empreendedores de todo o Brasil que potencializa conexões, colaboração genuína e compartilhamento contínuo de aprendizados, melhores práticas e erros entre membros de diferentes perfis e negócios, apoiando-os nos desafios de suas jornadas. Neste momento, a nossa principal proposta de valor percebida pelos mais de 800 empreendedores desse hub nunca esteve tão evidente – colaborar.

No grupo, tenho visto diversas iniciativas, como uma da Rede Mulher Empreendedora, sob a liderança de Ana Fontes. Durante a pandemia, a RME criou o movimento #apoieumaempreendedora, para incentivar o público a comprar de pequenos negócios, especialmente de mulheres, que estão mais vulneráveis na crise. A iniciativa conseguiu apoio do Google, que irá destinar R$ 7,5 milhões nos próximos dois anos para ajudar mulheres a recuperar os seus negócios dos efeitos da pandemia.

Foram milhares de movimentos e contribuições de grupos e empresas para apoiar pequenos negócios, formando uma verdadeira onda de solidariedade. A sociedade civil também se mobilizou e já se notam mudanças no comportamento dos consumidores. Eles estão cada vez mais conscientes sobre suas escolhas, provando que, mais do que nunca, consumir do pequeno tem se tornado um ato de colaboração, um gesto poderoso de reconhecimento para diminuir as perdas dos negócios locais.

Se a crise é um agente acelerador de tantas transformações, como serão os empreendedores da era pós-covid? Essa força da solidariedade também fará emergir novos perfis profissionais?

Segundo Adam Grant, em sua obra “Dar e Receber”, dentro das relações interpessoais de trabalho encontramos três perfis principais: os tomadores (takers), os doadores (givers) e os compensadores (matchers).

Os tomadores são aqueles que não medem esforços para agradar e extrair as melhores vantagens e não deixam escapar a chance de se promover. Enquanto isso, os doadores têm um perfil agregador – são uma espécie mais rara, que ajuda sem esperar nada em troca e compartilha seu tempo e habilidades. Já os compensadores são a maioria dentro das organizações, um perfil intermediário entre os estilos anteriores, que busca o equilíbrio entre as relações.

Após classificar os perfis, Grant chegou à conclusão de que, em geral, os doadores são pessoas mais bem-sucedidas em diferentes carreiras e conquistam posições mais altas, por dominar cinco áreas fundamentais – networking, colaboração, influência, negociação e liderança.

Em tempos tão desafiadores, quando não sabemos até onde vai essa crise, nunca foi tão necessário exercer o papel de doadores. A grande transformação deste momento parece estar em um novo olhar para a colaboração, no qual diversas empresas e pessoas experimentaram ser doadoras. Quando esta crise acabar, que a “pandemia da colaboração” siga impactando e transformando a sociedade, em um mundo mais conectado pela contribuição.

* Diogo Garcia é um dos líderes da Confraria do Empreendedor, startup hunter, analista do Shark Tank Brasil, palestrante, professor e mentor nas áreas de vendas, marketing e inovação

Fonte: PEGN

Diogo Garcia

Escrito por Diogo Garcia

Baiano que mora no mundo, é um dos fundadores da Confraria do Empreendedor, um hub colaborativo com membros de Norte a Sul do país. É Executivo de Desenvolvimento de Negócios na KPMG Brasil, analista do Shark Tank Brasil, conselheiro do Instituto Êxito e ProLider, professor da XP Educação e palestrante/mentor nas áreas de Vendas e Inovação das agências Casé Fala e Iiman.