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Quase uma dark web! Fraudes e comércio ilegal proliferam em grupos do Telegram

Usuários mal-intencionados do Telgram têm se aproveitado do anonimato oferecido pelo aplicativo para aplicar todo tipo de golpe, fraude e comércio de produtos ilegais no país. De acordo com uma reportagem da BBC News Brasil, milhares de pessoas estão expostas e podem ser vítimas de negociações fraudulentas. São mais de 20 mil pessoas reunidas em ambientes onde vendedores e compradores negociam em grupos informações pessoais, desde o endereço até o CPF, cadastros falsos e cartões de crédito.

Mesmo quem não acessa a internet está vulnerável às fraudes que acontecem nos grupos. É que alguns desses criminosos usam e vendem bases de dados obtidas em vazamentos ou hacks. Por exemplo, dados de usuários do Serviço Único de Saúde cadastrados no CadSUS são vendidos pelos hackers e podem ser usados para falsificação de cadastros em lojas virtuais e de cartões de crédito.

Crimes e golpes de todos os tipos

A reportagem, que acompanhou tudo por mais de seis meses, dentro de mais de 100 grupos, mostra que há um bombardeio de ofertas, como internet 4G ilimitada, canais de TV pela web, contas em serviços como Netflix e Spotify por um quarto do valor cobrado pelas empresas, golpes que mostram telas falsas de sites de bancos para obter dados de clientes.

Golpes que dão acesso a serviços de streaming por valores abaixo do mercado são as ofertas mais comuns. A Netflix, que vende oficialmente seu pacote mais alto por R$ 45,90, é encontrada por valores entre R$ 7 e R$ 13, com validade de 30 dias. Há também ofertas para serviços de música, como Spotify. Listas de IPTV, com mais de 18 mil canais de TV aberta e fechada do mundo inteiro são oferecidas por R$ 20 ao mês, em média.

Outros grupos oferecem venda de cédulas falsas, de drogas e até rifa de uma pistola da marca Glock. Embora não tenha efetuado nenhuma compra, a equipe da BBC News acompanhou diálogos e teve acesso a provas de que produtos funcionam de fato.

Convite para participar de grupo onde é feita rifa de uma pistola. 

Usuários pedem para que alguém no grupo encontre o CPF de alguma vítima, ou o nome da mãe, número de RG, data de nascimento, entre outros dados pessoais. Um cadastro falso pode ser feito com essas informações de terceiros, coletadas de alguma base de dados. Os fraudadores também fazem uma análise de crédito da vítima, porque se ela tiver uma alta pontuação nas empresas de avaliação, o nome deverá chamar menos atenção ao golpe que estiver sendo aplicado.

É possível identificar os criminosos?

O Telegram tem muitas características que o transformam em um lugar único para esse tipo de prática criminosa. Uma delas é o fato de que os grupos conseguem acomodar até 200 mil integrantes. São milhares de propostas diárias. A reportagem destaca um grupo específico onde é comum mais de 3 mil mensagens por dia, desde ofertas a memes e pornografia. Parte da administração dessas comunidades é automatizada por meio de robôs.

Embora as autoridades tenham confirmado as quebras de privacidade, comercialização de dados de usuários, invasões e vendas de produtos ilegais, é praticamente impossível identificar os criminosos graças a uma série de obstáculos técnicos, jurídicos e logísticos. Além disso, são muitas pessoas envolvidas nesses crimes, o que dificulta ainda mais as tentativas de acabar com o esquema.

Negociação de cédulas falsas e cartões de crédito.

“Isso dependeria de um acordo entre o Brasil e o país onde a empresa está sediada, acompanhado de um pedido da Polícia Federal para quebrar essa criptografia ou ter acesso aos dados dos investigados. Ainda assim, isso não garantiria o sucesso da investigação, pois o IP do computador (identificação dele na rede) pode ter sido alterado nesse meio tempo”, disse um policial em anonimato.

Ao contrário do WhatsApp, que hoje é visto como um parceiro pelos órgãos de investigação, o Telegram não tem representantes no país. Isso dificulta ainda mais o contato com seus administradores.

Para Thiago Marques, pesquisador da empresa de cibersegurança Kaspersky Lab, “depende bastante das formas de monitoramento, das técnicas que estão sendo utilizadas, mas é possível sim identificar e chegar até quem usa o Telegram sem necessariamente precisar pedir informações ao aplicativo”. Isso exigiria um processo longo de investigação.

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