Minha amiga Ia e o mundo que a inteligência artificial está criando
Eu tenho uma amiga chamada Ia. Amiga de décadas, que o tempo, a distância e a vida profissional insistem em distanciar. Durante muito tempo, o nome dela provocava uma pequena confusão. “Ia?” “Sim, Ia.” “É nome mesmo?” Era. Hoje, porém, dizer que tenho uma amiga chamada Ia produz outro tipo de estranheza. As pessoas escutam “Ia” e imediatamente pensam em IA, inteligência artificial. Então preciso logo esclarecer: Ia é uma pessoa. A ironia é que, justamente agora que a inteligência artificial passou a fazer parte do nosso cotidiano, o nome da minha amiga ganhou um novo significado, capaz de produzir uma confusão que antes não existia.
Talvez essa pequena história seja uma boa porta de entrada para compreender o momento que estamos vivendo. A inteligência artificial deixou de ser uma promessa distante da ficção científica e começou a se tornar uma infraestrutura da vida cotidiana. Ainda estamos, provavelmente, nos primeiros capítulos dessa transformação. E talvez o maior erro seja tentar compreender a IA apenas pelas coisas que ela já consegue fazer.
Grandes transformações tecnológicas raramente podem ser compreendidas apenas por suas aplicações iniciais. Seus efeitos mais importantes costumam aparecer depois, quando outras pessoas passam a utilizar a tecnologia de maneiras que seus criadores sequer imaginaram. Uma das melhores formas de perceber isso é olhar para uma tecnologia muito mais antiga: o fogo. Yuval Noah Harari, em Sapiens, chama atenção para a importância revolucionária que o domínio do fogo teve para a espécie humana. O fogo não serviu apenas para aquecer, iluminar ou proteger nossos ancestrais. O cozimento dos alimentos modificou profundamente a relação entre o ser humano e sua alimentação. Alimentos passaram a ser mais fáceis de mastigar e digerir, aumentando a energia que podia ser obtida daquilo que era consumido e reduzindo o tempo e o esforço necessários para a alimentação. O ser humano passou a externalizar, no fogo, parte de um processo que antes dependia exclusivamente de seu próprio organismo.
É difícil imaginar que os primeiros seres humanos tenham percebido todas as consequências dessa descoberta. Ninguém diante de uma fogueira deve ter pensado que algumas horas economizadas na mastigação e digestão poderiam, milhares de anos depois, contribuir para uma espécie capaz de construir cidades, escrever livros, produzir ciência, criar computadores e desenvolver inteligência artificial. A tecnologia resolveu um problema imediato e, ao mesmo tempo, abriu espaço para uma transformação muito maior. O tempo que deixou de ser necessário para uma determinada atividade tornou-se potencialmente disponível para outras.
Essa característica aparece repetidamente na história humana. A agricultura reduziu a necessidade de deslocamento constante em busca de alimentos e permitiu o surgimento de assentamentos permanentes. As máquinas multiplicaram a força física humana. A eletricidade transformou a produção. O computador ampliou enormemente nossa capacidade de calcular, armazenar e processar informações. A Internet reduziu brutalmente o custo da comunicação e do acesso à informação. Em cada uma dessas etapas, uma parte do esforço anteriormente necessário para realizar determinada atividade foi reduzida, e o espaço liberado foi ocupado por novas atividades.
É nesse ponto que a inteligência artificial se torna particularmente interessante. Pela primeira vez em uma escala tão ampla, estamos desenvolvendo ferramentas capazes de participar diretamente de atividades que durante muito tempo consideramos essencialmente humanas. Escrever, traduzir, pesquisar, programar, analisar documentos, interpretar informações, criar imagens, produzir música, organizar dados, responder perguntas e, cada vez mais, executar tarefas inteiras são atividades que podem ser realizadas ou apoiadas por sistemas de IA.
A consequência mais importante talvez não seja que uma inteligência artificial consiga escrever um relatório em poucos segundos. É o fato de que, se antes uma pessoa precisava de oito horas para realizar determinada atividade e agora consegue fazê-la em uma hora, sete horas foram potencialmente liberadas. Isso parece simples, mas é uma mudança econômica e social profunda. A grande questão passa a ser o que faremos com esse tempo.
É tentador interpretar a automação apenas como destruição de empregos. Entretanto, essa interpretação pode ser tão limitada quanto imaginar que a mecanização agrícola apenas eliminou trabalhadores do campo. Parte do trabalho foi, de fato, eliminada ou deslocada. Mas a produtividade adicional também permitiu que sociedades inteiras reorganizassem sua força de trabalho e criassem atividades que antes seriam economicamente inviáveis. A questão não é apenas quantos empregos uma tecnologia elimina, mas quais atividades passam a fazer sentido quando o custo de determinadas tarefas cai drasticamente.
A Internet oferece talvez o melhor exemplo contemporâneo. Quando começou a se popularizar, poderia ser entendida simplesmente como uma nova maneira de acessar informação e trocar mensagens, mas dela surgiram cadeias econômicas inteiras que dificilmente poderiam ter sido previstas em seus detalhes. O comércio eletrônico transformou a maneira como compramos. Os mecanismos de busca transformaram o acesso ao conhecimento. A geolocalização permitiu novos modelos de transporte e logística. As redes sociais criaram novas formas de comunicação, publicidade e entretenimento. A computação em nuvem mudou a forma como empresas constroem e operam sistemas. Plataformas digitais criaram mercados inteiros. Ironicamente, a própria inteligência artificial contemporânea depende dessa infraestrutura criada pela transformação digital anterior.
Nassim Nicholas Taleb oferece uma lente interessante para compreender esse fenômeno. Ao discutir a imprevisibilidade e a complexidade dos sistemas em obras como The Black Swan e Antifragile, Taleb chama atenção para a dificuldade de prever as consequências de determinados acontecimentos e tecnologias. Muitas das transformações mais importantes não são planejadas de cima para baixo. Elas emergem da combinação de inúmeras decisões descentralizadas, experimentações, erros, descobertas e usos inesperados. A Internet é novamente um exemplo emblemático. Não foi necessário que alguém desenhasse antecipadamente toda a economia digital para que ela surgisse. Bastou existir uma infraestrutura que permitisse a milhões de pessoas experimentar novas possibilidades.
Talvez seja exatamente isso que esteja acontecendo agora com a inteligência artificial. Estamos olhando para ferramentas que escrevem textos, geram imagens, produzem código e respondem perguntas, mas talvez essas sejam apenas as primeiras manifestações de uma transformação muito maior. A questão não é apenas saber o que os atuais modelos de IA conseguem fazer, mas também entender o que milhões de pessoas e organizações poderão construir quando essas capacidades forem incorporadas aos seus processos, sistemas e produtos.
O desenvolvimento dos agentes de IA torna essa mudança ainda mais significativa. Um assistente que responde a uma pergunta é uma coisa. Um agente capaz de receber um objetivo, decompor um problema, pesquisar informações, utilizar diferentes sistemas, executar tarefas, verificar resultados e continuar trabalhando de forma relativamente autônoma é outra. Quando essas capacidades forem incorporadas aos processos das empresas e dos governos, a unidade de produtividade poderá mudar. Em vez de uma pessoa utilizando dezenas de ferramentas para realizar uma tarefa, poderemos ter uma pessoa coordenando uma rede de capacidades digitais que trabalha continuamente em seu nome.
Isso não significa necessariamente um mundo sem trabalho. Pode significar um mundo em que o trabalho humano se desloca para atividades que hoje não realizamos porque são caras demais, demoradas demais ou simplesmente porque não temos pessoas suficientes para executá-las. Uma pequena empresa poderá ter acesso a capacidades que antes estavam disponíveis apenas para grandes organizações. Um pesquisador poderá analisar volumes de informação que antes exigiriam uma equipe inteira. Um professor poderá personalizar materiais para diferentes alunos. Um médico poderá ter ferramentas capazes de organizar e cruzar informações em uma escala que seria impraticável manualmente. Um gestor público poderá monitorar continuamente indicadores que hoje são analisados de maneira esporádica. Um empreendedor poderá testar dezenas de hipóteses antes que uma grande organização consiga colocar uma delas em prática.
Existe, porém, um problema fundamental nessa história: a liberação de capacidade não será necessariamente distribuída de maneira uniforme. A IA pode aumentar a produtividade de todos e, simultaneamente, ampliar a distância entre aqueles que conseguem utilizá-la de maneira eficaz e aqueles que não conseguem. Uma empresa com acesso a modelos avançados, dados de qualidade, infraestrutura computacional e profissionais capazes de integrar IA aos seus processos terá condições muito diferentes de uma pequena organização que utiliza apenas recursos básicos. Tal afirmação também vale para países, governos, escolas e indivíduos.
O Fundo Monetário Internacional tem chamado atenção para esse aspecto. A adoção da inteligência artificial pode produzir ganhos importantes de produtividade, mas seus efeitos sobre a desigualdade dependerão de fatores como acesso à tecnologia, qualificação profissional, estrutura econômica e capacidade de capturar os ganhos produzidos pela automação. A Organização Internacional do Trabalho também aponta que uma parcela significativa dos empregos existentes está exposta à inteligência artificial generativa, mas ressalta que a transformação das ocupações tende a ser mais comum do que a substituição completa de profissões inteiras. Isso significa que a transição não será simplesmente entre pessoas que trabalham e máquinas que trabalham. Será também uma disputa por adaptação, qualificação, capital e acesso à tecnologia.
Existe ainda uma dimensão física que pode ser facilmente esquecida quando falamos de inteligência artificial. A expressão “nuvem” produz a sensação de que a tecnologia vive em algum lugar abstrato, mas ela depende de data centers, processadores, redes de comunicação, energia elétrica, sistemas de refrigeração, água e minerais. Quanto maior a utilização de IA, maior pode ser a demanda por infraestrutura computacional e energética. A tecnologia que promete economizar tempo e trabalho humano também exige recursos naturais para existir. Isso cria outra camada de complexidade: os benefícios econômicos da IA precisarão ser conciliados com seus custos ambientais e materiais.
É por isso que talvez seja prematuro tentar definir exatamente onde a inteligência artificial vai chegar. Estamos tentando enxergar o futuro olhando para as primeiras aplicações de uma tecnologia que ainda está amadurecendo. Seria como tentar prever o comércio eletrônico observando apenas os primeiros sites que vendiam livros, ou imaginar as redes sociais analisando apenas os primeiros sistemas de mensagens na Internet.
As grandes transformações não acontecem apenas quando uma tecnologia fica melhor. Elas acontecem quando a tecnologia passa a ser combinada com outras tecnologias, incorporada aos processos das organizações e apropriada por milhões de pessoas. É nesse momento que surgem os efeitos de segunda, terceira e quarta ordem. Novos produtos aparecem, novos mercados são criados, profissões desaparecem ou se transformam, outras profissões surgem, modelos de negócio são reinventados e comportamentos sociais mudam. Talvez estejamos diante de uma dessas transições.
Durante milhares de anos, a humanidade criou ferramentas para ampliar a capacidade física do indivíduo. A roda permitiu transportar mais. As máquinas permitiram produzir mais. A eletricidade permitiu operar em uma escala antes impossível. O computador ampliou nossa capacidade de calcular e processar informação. A Internet ampliou nossa capacidade de comunicar, distribuir conhecimento e conectar pessoas. A inteligência artificial começa agora a ampliar nossa capacidade de processar conhecimento, criar e executar trabalho cognitivo. O que faremos com essa capacidade ainda é uma pergunta em aberto e, talvez, seja essa justamente a parte mais fascinante.
Se a humanidade aprendeu, desde o domínio do fogo, a utilizar tecnologia para reduzir o tempo e o esforço necessários à sobrevivência, talvez a inteligência artificial represente mais um passo nessa direção. Só que, desta vez, não estamos apenas reduzindo o esforço físico. Estamos começando a reduzir o custo de determinadas atividades intelectuais.
O verdadeiro valor dessa transformação, portanto, não estará apenas naquilo que a IA será capaz de fazer por nós. Estará naquilo que os seres humanos poderão fazer quando determinadas tarefas deixarem de consumir uma parcela tão grande do nosso tempo: mais ciência, mais educação, mais criatividade, mais pesquisa, mais empreendedorismo, mais cuidado, mais arte, mais inovação e, principalmente, mais atenção aos problemas que hoje não conseguimos enfrentar simplesmente porque não temos tempo, recursos ou pessoas suficientes. A inteligência artificial pode, portanto, ser muito mais do que uma ferramenta de automação. Pode ser uma tecnologia de liberação de capacidade humana.
Ainda não sabemos quais serão todas as consequências. Provavelmente não temos sequer as perguntas certas e, talvez, seja justamente por isso que devamos olhar para esse momento menos como a chegada de uma tecnologia acabada e mais como o início de uma nova infraestrutura sobre a qual serão construídas coisas que ainda não conseguimos imaginar.
Assim como ninguém diante de uma fogueira poderia prever a civilização que surgiria milhares de anos depois, talvez seja impossível para nós, olhando para uma tela e conversando com uma IA hoje, compreender completamente o mundo que será construído a partir dela.
Em meio a essa transformação, continuarei tendo uma amiga chamada Ia. Só que agora, quando digo seu nome, talvez precise explicar duas vezes. A primeira vez, para dizer que ela é uma pessoa e a seguinte para explicar que a outra IA ainda está apenas começando…
Referências bibliográficas
1. HARARI, Yuval Noah. Sapiens: Uma breve história da humanidade. New York: Harper, 2015.
2. WRANGHAM, Richard. Pegando fogo: Por que cozinhar nos tornou humanos. Basic Books, 2009.
3. TALEB, Nassim Nicholas. A lógica do Cisne Negro: O impacto do altamente improvável. Random House, 2007.
4. TALEB, Nassim Nicholas. Antifrágil: Coisas que se beneficiam com o caos. Random House, 2012.
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6. ROCKALL, Emma J.; TAVARES, Marina M.; PIZZINELLI, Carlo. AI Adoption and Inequality. IMF Working Paper 2025/068. International Monetary Fund, 2025.
7. BOGMANS, Christian et al. Power Hungry: How AI Will Drive Energy Demand. IMF Working Paper 2025/081. International Monetary Fund, 2025.
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