Enquanto os Estados Unidos enfrentam gargalos na oferta de energia elétrica que atrasam a expansão de data centers para inteligência artificial (IA), o Brasil lida com sobreoferta de energia renovável e cortes de geração. Essa contradição destaca desafios regulatórios e de infraestrutura em ambos os países, com impactos em investimentos globais de big techs. No Brasil, o limbo jurídico em torno do Regime Especial de Tributação para Data Centers (Redata) ameaça projetos previstos, enquanto nos EUA o consumo de energia por data centers deve crescer significativamente.
Gargalo energético nos EUA
O número de projetos de data centers de IA nos Estados Unidos desacelerou no final do ano passado devido a problemas com licenças e atrasos na conexão à rede elétrica por falta de oferta de energia. Esses data centers hiperescaladores, projetados para operar em escala massiva e processar volumes gigantescos de dados para servidores de IA, exigem grande quantidade de energia, 24 horas por dia e sete dias por semana. O setor elétrico do país pode não conseguir entregar essa demanda contínua, o que ameaça estourar a bolha de construção de tais centros.
A previsão do Departamento de Energia dos EUA indica que os data centers consumirão cerca de 12% da energia gerada no país até 2028, um aumento em relação aos 2% antes de 2020. Essa pressão levou o presidente Donald Trump a exigir que as big techs construam suas próprias usinas de energia para alimentar os data centers de IA. A Casa Branca discute a medida com 13 governadores do Meio-Atlântico e do Centro-Oeste, propondo tarifas de eletricidade significativamente mais altas como alternativa.
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Excesso de energia renovável no Brasil
No Brasil, a sobreoferta de energia renovável resulta de baixo consumo e leva ao curtailment, com cortes de geração de usinas renováveis centralizadas pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). Para evitar o colapso do sistema, o ONS descartou 20% da energia produzida pelas usinas centralizadas no ano passado, devido ao excesso injetado na rede pelas distribuidoras, especialmente por geração distribuída como painéis solares em telhados. O problema reside na infraestrutura da rede, que exige mais subestações e linhas de transmissão para transportar energia renovável do Nordeste para o Sudeste, onde os data centers de IA estão mais concentrados.
A consultoria Volt Robotics estima a necessidade de investimentos de R$ 100 bilhões a R$ 120 bilhões até 2030 em melhorias do setor elétrico brasileiro para adequar a rede. Apesar disso, as big techs preveem investimentos massivos em data centers de IA no país, atraídas pela ampla oferta de energia renovável, que compõe 90% da matriz energética, e pelo custo baixo em relação a outros países. A capacidade instalada no Brasil é de 217 GW, com produção superior ao consumo atual.
Demanda global por energia para data centers
A Agência Internacional de Energia (IEA) estima que a demanda global de eletricidade para data centers dobrará até 2030, com aumentos ainda maiores nos EUA e na China. No Brasil, a carga requerida por esses centros deve crescer de 2,5 GW em 2024 para 9 GW até 2037, segundo o Ministério de Minas e Energia. Essa expansão se deve à capacidade ociosa da rede elétrica brasileira, que produz mais energia do que consome.
Na China, a corrida por energia para IA impulsionou a operação de mais de 50 novas usinas de carvão de grande porte no ano passado, contra cerca de 20 por ano na década anterior, revertendo uma década de foco em fontes limpas como eólica, solar e hidrelétrica. De 2021 para cá, o país instalou 1.500 GW de nova capacidade energética, elevando o total para 3.891 GW, enquanto os EUA adicionaram muito pouco e mantêm 1.373 GW. A capacidade de carvão na China em 2025 superou a da Índia ao longo da década anterior, com fontes limpas responsáveis por mais da metade do crescimento elétrico no período.
Respostas das big techs e impacto econômico
Para suprir a demanda, big techs nos EUA estudam alternativas de geração, como a Microsoft, que pretende reabrir a usina nuclear desativada de Three Mile Island, na Pensilvânia, e a Meta, que anunciou acordos com startups de energia nuclear avançada. Trump destacou preocupações de que a demanda de energia dos data centers de IA aumente injustamente as contas de luz dos americanos, em discurso do Estado da União esta semana.
O investimento bilionário em IA não impulsionou o crescimento econômico dos EUA em 2025, segundo cálculos do Goldman Sachs, com impacto próximo de zero no PIB. Cerca de 75% do custo para construir um data center de IA vai para equipamentos importados da Ásia, como chips, o que subtrai do cálculo do PIB, focado na produção interna. Analistas de Morgan Stanley e JPMorgan Chase consideram superestimada a ideia de que a IA generativa salva a economia, embora cinco big techs planejem gastar US$ 700 bilhões em infraestrutura em 2026, movimentando setores como construção civil.
Limbo regulatório do Redata no Brasil
O anúncio do Redata em maio do ano passado, que isenta impostos sobre ativos de TI e reduz o custo de capital em 50%, estimulou projetos de data centers de 500 MW a 1,5 GW, com benefícios até 31 de dezembro de 2026, prevendo R$ 1 trilhão em investimentos até 2030. A Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 278/2026 na terça-feira (24), transformando a medida provisória em lei para evitar caducidade em 25 de fevereiro, mas o presidente do Senado, David Alcolumbre, recusou incluí-lo na pauta, em retaliação política ligada a investigações da Polícia Federal contra políticos do União Brasil no caso do Banco Master.
A legislação proíbe novos incentivos fiscais em ano de eleição, colocando os benefícios do Redata em risco, enquanto governo e empresários buscam saídas jurídicas. Luis Tossi, vice-presidente da Associação Brasileira de Data Centers (ABDC), alerta para previsibilidade zero em investimentos multianuais de cloud e IA, travados desde maio pela falta de segurança jurídica. Sem aprovação rápida, os aportes podem migrar para Chile, México e Uruguai, causando perdas em energia renovável, gás, conectividade, fibra, cabos submarinos e base tecnológica, com drenagem de talentos.
A Brasscom classifica a aprovação na Câmara como marco para autonomia digital, revertendo déficit de US$ 7,9 bilhões na balança comercial de serviços de computação em 2025, onde o custo de processamento no Brasil é 20% a 30% superior à média internacional. O regime exige 2% dos investimentos para desenvolvimento tecnológico local, pesquisa e inovação, com data centers consumindo menos de 0,008% da água disponível e 3,6% da energia elétrica até 2030, índices absorvíveis pelo sistema.





































