WarnerMedia, AT&T e Discovery: Uma história sobre filmes e M&A

 WarnerMedia, AT&T e Discovery: Uma história sobre filmes e M&A

(Imagem: Thiago Pontes/Ilustração)

“It’s all about bucks, kid. The rest is conversation.” – Gordon Gekko (Wall Street, 1987)

O mundo corporativo possui diversas histórias de sucesso e fracasso ao longo dos seus séculos de existência, e uma das mais recentes diz respeito a dois gigantes conglomerados norte-americanos: a AT&T e a WarnerMedia (ex-Time Warner).

Duas das maiores empresas do setor de TMT (Tecnologia, Media e Telecomunicações) que, ao longo de duas décadas, participaram de operações de fusões e aquisições que moldaram suas indústrias (para o bem ou para o mal) e redefiniram o pensamento gerencial de executivos no mundo inteiro acerca das práticas de concentração empresarial desenvolvidas ao longo do século passado.

Neste mês de abril, a AT&T, a WarnerMedia e a Discovery chegaram num acordo para contemplar a fusão das duas últimas numa nova empresa de entretenimento, adicionando mais um capítulo nesta história de fusões e aquisições bilionárias, a qual será abordada neste presente artigo.

Uma história americana

A AT&T e a WarnerMedia são duas gigantes em seus respectivos setores, e sua história pode ser confundida com a história corporativa dos Estados Unidos.

A American Telephone and Telegraph Company (AT&T) foi criada em 1875, por Alexander Graham Bell e Thomas Watson, como uma subsidiária da American Bell Telephone Company, a primeira companhia telefônica da história. Nos anos subsequentes, a AT&T adquire a American Bell Telephone e desenvolve um monopólio, nos EUA, do setor de telefonia – monopólio esse, que só viria a ser quebrado em 1982, por exigência do governo norte-americano.

Do outro lado do país, surgiu, em 1923, a Warner Bros. Pictures – um estúdio de cinema que logo se tornaria um dos maiores conglomerados de entretenimento dos Estados Unidos, detendo grandes participações no mercado cinematográfico, de música, cartoons, revistas em quadrinhos e outros mais. Em 1990, a Time Inc. (dona de revistas como a Time, Life e Sports Illustrated) é fundida com a Warner Communications, criando assim a Time Warner.

Apesar disto, com a chegada do novo milênio, as duas gigantes veriam seus modelos de negócio serem postos de cabeça para baixo pela popularização da internet, o que levaria as duas companhias a uma onda de fusões e aquisições nunca antes vistas na história.

Quando o M&A se torna o vilão da história

Em 2001, a America Online (AOL), uma das primeiras companhias provedora de internet da história e que construiu um verdadeiro império na época da internet discada e da “bolha do ponto.com”, realizou um dos maiores movimentos de M&A que o mundo corporativo já havia visto – a aquisição da Time Warner pelo valor de US$ 182 bilhões.

Dessarte, o racional por trás da transação seria uma tentativa da Time Warner de abraçar a revolução digital que havia começado no setor, tentando crescer a participação da empresa no novo mercado de mídias digitais, enquanto que para a AOL seria uma tentativa de ancorar o seu valor de mercado em ativos mais tangíveis, como as propriedades físicas e intelectuais da Time Warner.

Entretanto, a nova companhia criada, a AOL Time Warner, enfrentou severas dificuldades nos anos que vieram – além do “estouro” da bolha do ponto.com, a companhia enfrentou a perda de market share no mercado de conectividade pelo surgimento e popularização da internet de banda larga. Já em 2002, apenas um ano após a fusão, a companhia já havia perdido US$ 99 bilhões em valor de mercado.

Como resultado, a fusão teve vida curta, em 2010 a AOL e a Time Warner se separaram, dando fim a desastrosa fusão – tendo a AOL sido comprada pela Verizon em 2015 por uma fração do valor que a companhia possuía durante o início dos anos 2000. Jeff Bewkes, ex-CEO da Time Warner, classificou a fusão de 2001 como o “maior erro da história corporativa”.

Fusões, aquisições, cisões e um ciclo sem fim

Certo, mas onde entra a AT&T na história?

Mesmo com a quebra do seu monopólio telefônico pelo governo norte-americano nos anos 80, a AT&T continuou a sua expansão dentro do mercado de telecomunicações global, focando na conectividade e adentrando no mercado de provedores de internet. Dessa forma, a companhia figurava como a maior detentora de market share nos Estados Unidos e começava sua caminhada rumo a lista das maiores empresas do planeta.

Dessa forma, a estratégia adotada pela AT&T era simples: oferecer o máximo de serviços de conectividade para os seus clientes e faturar em cima do ganho de escala e venda cruzada.

Assim, surgiu a ideia de ouro de aprimorar o seu serviço de entretenimento e televisão via satélite com a compra de conteúdos programáticos exclusivos, de modo similar ao que sua concorrente, a Comcast, havia feito com a aquisição da NBCUniversal. Foi dessa forma que, em 2016, a AT&T anunciou a compra da Time Warner por U$ 85,4 bilhões e a fundiu com sua divisão de televisão por satélite, a DirecTV – criando assim a WarnerMedia.

Todavia, a aquisição, que desde o seu anúncio foi cercada de controvérsias, nunca deslanchou como deveria – o avanço do streaming, liderado pela Netflix, sobre a televisão a cabo demonstrou a incapacidade dos conglomerados de media, como a WarnerMedia, de se adaptarem a novos gostos dos consumidores e de produzirem conteúdo de qualidade através de uma estrutura mais enxuta e menos burocrática.

Explicando de uma maneira bem resumida: a AT&T e a WarnerMedia possuíam um número tão grande e diverso de serviços, conteúdos e estruturas administrativas que qualquer movimento delegava um gasto abrupto de recursos e pessoal – basta pensar que uma empresa de telecomunicações agora era dona de uma empresa de quadrinhos (DC Comics).

Consequentemente, para resolver este problema, a AT&T recorreu ao corte de gastos e pessoal, além de reorganizações corporativas. Some isto a tremenda quantidade de dívida que a empresa adquiriu para o financiamento da operação e você tem um frankenstein de US$ 181 bilhões em faturamento anual, mas que vê seu valor de mercado diminuir desde a fusão em 2016.

Uma nova esperança

Em abril de 2022, a AT&T, a WarnerMedia e a Discovery chegaram a um acordo para a fusão das duas últimas numa única entidade, que passará a se chamar Warner Bros. Discovery.

A ideia é que a nova companhia, sobre a qual os acionista das AT&T terão 71% de participação, terá maior liberdade administrativa e contará com um dos maiores acervos de conteúdo do mundo do entretenimento, passando a focar, então, na expansão dos serviços de streaming das duas companhias, o HBO Max e o Discovery Plus, que deverão se fundir num só serviço.

Do ponto de vista comercial e de criação de valor, a transação faz bastante sentido. A maioria dos serviços de streaming estão se digladiando para comprar conteúdos valiosos e diversificar seu portfólio o bastante para competir com gigantes como a Netflix. E do lado da AT&T, a companhia segue uma tendência global de grandes conglomerados diversificados (como a General Electric e a Pfizer) de vender parte de seus ativos conflitantes para poderem focar no core business da companhia (que definitivamente, não é produzir séries adolescentes).

No fim disso tudo, há uma questão a ser levantada: quanto megafusões como a entre WarnerMedia e Discovery realmente beneficiam os consumidores no final do dia. O que, na teoria, deveriam dar aos consumidores acesso a um catálogo maior de conteúdos por um preço acessível, na prática, está levando a conteúdos saturados e mash-ups estranhos (como um crossover de Supernatural com Scooby-doo). Mas talvez isto seja assunto para um outro artigo.

Conclusão

O objetivo de todas as empresas, de um restaurante familiar aos maiores conglomerados do planeta, é prover lucro aos seus acionistas e, como afirma a citação de Gordon Gekko – personagem interpretado por Micheal Douglas no filme Wall Street – proferida no começo deste artigo, “todo o resto é conversa”.

A vista disso, operações de fusões e aquisições podem parecer, aos telespectadores de tais movimentações, decisões erradas que levam as companhias que as praticam ao endividamento e prejuízo. Entretanto, todas as operações descritas acima foram planejadas e executadas visando maximizar o valor da companhia aos acionistas e mesmo aquelas que resultaram em catástrofes (como a fusão da AOL e da Time Warner) possuíam racionais que faziam sentido para os diversos executivos e conselheiros destas companhias.

Assim, é irresponsável culpar o conceito, em si, das operações de M&A e afirmar que elas apenas atrapalham o desenvolvimento orgânico das companhias. Corroborar com essa tese é esquecer de casos como o Youtube-Google e Disney-Pixar. É esquecer que as próprias AT&T e WarnerMedia foram resultados de dezenas de operações de fusões e aquisições ao longo dos anos, a fim de poderem alcançar o patamar de gigantes de suas respectivas indústrias.

Logo, como podemos saber se uma operação irá dar certo ou errado?

Infelizmente, ainda não desenvolvemos a capacidade de prever o futuro, como nos filmes de ficção científica. Toda decisão empresarial irá necessitar de uma parcela de sorte para o seu sucesso. Entretanto, você pode chegar próximo desse resultado através da análise e reflexão acerca do seu mercado e de onde sua empresa deseja chegar, pois, parafraseando a Eneida de Virgílio: a sorte favorece os bravos.

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Gregory de Albuquerque

Analista de M&A na JBR Partners Capital e bacharelando em direito pela FDR/UFPE. Aficionado pelo mercado financeiro e principalmente mundo tech é entusiasta do ecossistema no Nordeste. Apaixonado por esportes e bons filmes (to the moon 🚀🚀)

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