Após meses de indefinição e apreensão no mercado, o Governo federal agendou para dezembro um esperado — e inédito — leilão para contratar sistemas de armazenamento de energia com baterias. Ou melhor: leilões.
O Ministério de Minas e Energia decidiu realizar duas licitações separadas: uma exclusiva para projetos que atendam exigências de conteúdo local nos equipamentos, em 2 de dezembro; e outra, com competição aberta a todos os fornecedores, em 4 de dezembro.
Dois modelos, uma solução salomônica
A decisão foi vista como uma “solução salomônica” por uma fonte próxima às conversas, em entrevista ao Brazil Journal. O nível de exigência de nacionalização dos projetos era um dos pontos que mais atrasavam a definição da data do leilão.
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Outra fonte do setor classificou as diretrizes, publicadas no Diário Oficial, como “cheias de ‘cercadinhos’ para proteger uma indústria nacional que nem existe ainda”.
China domina, Brasil tenta competir
A indústria de baterias elétricas é fortemente concentrada na China. Grupos como BYD, CATL e Huawei estão entre os principais fornecedores que disputam contratos com as empresas participantes do leilão.
Do lado brasileiro, a WEG e o Grupo Moura são apontados como os concorrentes da indústria nacional. A WEG, inclusive, está investindo em uma fábrica em Itajaí (SC) para produzir localmente os sistemas de armazenamento conhecidos como BESS (Battery Energy Storage Systems).
Os players nacionais, no entanto, devem montar seus equipamentos localmente em parceria com os chineses, uma vez que não detêm a tecnologia para produzir a célula química das baterias.
Contexto regulatório: Lei 15.269/2025
O leilão é regulamentado pela Lei 15.269/2025, que estabeleceu o marco legal para o armazenamento de energia no Brasil. Na licitação exclusiva para conteúdo local, serão permitidos projetos que cumpram os requisitos mínimos de nacionalização definidos em regulamento do BNDES para financiar o setor.
Os vencedores da concorrência deverão entregar seus sistemas de armazenamento com início da operação a partir de agosto de 2028, e assinarão contratos de suprimento por 15 anos, com receita fixa reajustada pelo IPCA.
Conexão com data centers e IA
O leilão de baterias tem um impacto direto sobre a infraestrutura de data centers no Brasil. A energia firme 24/7 fornecida pelos sistemas BESS é considerada essencial para atrair investimentos em inteligência artificial e computação em nuvem.
Estimativas apontam que o Brasil pode atrair até US$ 33 bilhões em investimentos em data centers até 2030 — desde que consiga garantir fornecimento estável de energia.
Por que importa
Os leilões devem contratar um total de 2 gigawatts em capacidade de baterias, movimentando investimentos estimados em R$ 10 bilhões, segundo a Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia (ABSAE).
O certame já atrai interesse de empresas como AXIA Energia, ISA Energia, Auren, Engie e até da Petrobras. Entre os fornecedores, além dos chineses e dos players locais, a Tesla de Elon Musk também tem se movimentado para disputar uma fatia do mercado.
A tensão entre protecionismo e competitividade é o fio condutor dos dois leilões: o modelo com conteúdo local protege a indústria nascente brasileira, mas pode elevar custos para o consumidor. O modelo aberto tende a gerar lances mais competitivos, mas concentra o mercado em fornecedores internacionais.
Fonte: Brazil Journal — Luciano Costa — 3 de junho de 2026





































