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Facetas da Criatividade (Parte II) #Estalo!

E aí Rapaduras?! Na primeira parte do artigo “Facetas da Criatividade”, vimos que a criatividade é a base da inovação e, como consequência, do sucesso dos negócios na sociedade do conhecimento. Nesta segunda e última parte do artigo, veremos que estudar e problematizar a importância da criatividade não é só enfatizar a pessoa criativa. De outro modo, envolve também uma análise consistente do papel do produto, do processo e do lugar criativo.

Diante do universo de possibilidades para a compreensão da criatividade, verificam-se algumas características em comum do ponto de vista comportamental. Uma delas diz respeito à noção de pensamento divergente, por vezes entendido como próprio sinônimo da criatividade. O pensamento divergente se caracteriza como a capacidade de resolver problemas cotidianos de forma inovadora, pouco ortodoxas ou incomuns, fazendo uso de pensamentos, sentimentos e comportamentos não usuais (Williams, 2004).

A abertura para novas ideias de forma diferenciada, que é uma característica do pensamento divergente, tende a favorecer a emergência do novo e de consequente ganhos de produtividade. Pensar de forma divergente é não se restringir à uniformidade ou a uma postura lógica e coerente. Ou seja, é colocar a imprevisibilidade como um elemento que favorece a criatividade, em detrimento de uma postura estritamente cartesiana.

Normalmente, os estudos em torno da criatividade possuem uma abordagem que enfatiza a pessoa criativa, ou, quando no máximo, algum produto criativo. Quem aí nunca se deparou com artigos tratando dos estímulos que devem ser postos em prática para se tornar mais criativo, quais habilidades a serem desenvolvidas ou como implantar determinada solução criativa? Temos de ponderar, no entanto, que os contornos da criatividade são multifacetados, e, além de sujeito e produto, podemos compreender a criatividade a partir do processo e dos lugares criativos, como veremos abaixo.

É comum que a criatividade seja colocada em um território místico ou tida como atributo de seres humanos excepcionais, talentosos, detentores de um dom próprio. Esta perspectiva, tem sido alvo de sucessivas críticas e revisões, que não consideram a capacidade de invenção do próprio indivíduo, seus traços e comportamentos específicos que impulsionam a geração de novas ideias (Styhre & Sundgren , 2005). Essa representação reflete uma concepção que é predominante hoje em dia, na qual a noção de criatividade é entendida e estudada sobretudo a partir da perspectiva do sujeito.

Indo além desta concepção, o produto criativo se constitui como a forma mais concreta e tangível para análise de manifestação da criatividade. Ele resulta da intervenção humana em um processo de ressignificação e combinabilidade de componentes pré-existentes, podendo ser tanto uma ideia ou objeto. Conforme Amabile (1988): “Criatividade é a produção de ideias novas e úteis por um indivíduo ou um pequeno grupo de indivíduos trabalhando juntos” (p. 126).

Já a criatividade à luz do lugar (ou ambiente) criativo tem por objetivo investigar as diferentes variáveis do ambiente de trabalho que estão relacionadas à produção criativa e, nomeadamente, como o contexto e/ou fatores sociais influenciam a criatividade. Essa perspectiva visa superar principalmente a associação da criatividade restrita ao âmbito do sujeito e ao aspecto meramente cognitivo, o qual acaba por limitar as possibilidades de entender a influência do ambiente social e organizacional.

Por último, a perspectiva da criatividade enquanto processo refere-se à análise das características do ato criativo propriamente dito. Como ocorrem as combinações que perpassam a criação de novas ideias? Quais especificidades em relação às demais atividades humanas? Analisar o processo criativo implica em inseri-lo em um lugar marcado pela divergência, incerteza, associações, síntese e conectividade.

Portanto, o entendimento da criatividade não deve estar ligado estritamente a quais ações o sujeito deve empreender ou a quais posturas deve pôr em prática. Afinal, essa postura não abrangeria o todo que o conceito representa, pois a criatividade se faz da inter-relação entre propriedades pessoais e o ambiente em que se está inserido. E, nesse espaço, há processos de estímulo à criatividade com métodos não usuais, e cujo modus operandi deve ser analisado em sua especificidade.

Olhar para criatividade apenas com a ideia do que o indivíduo é ou não capaz de empreender, significa desconsiderar que o próprio sujeito se faz das relações com o meio; e nessa correlação surgem resultados imprevisíveis e de múltiplas combinações. Esses, são premissas para a inovação, disrupção, novos empreendimentos, impactos sociais, econômicos e por aí vai….

Referências:
Amabile, T. M. (1988), “A Model of Creativity and Innovation in Organizations”, Research in Organizational Behaviour, Vol. 10, pp. 123-167.
Styhre, A., e Sundgren , M. (2005), “Managing Creativity in Organizations – Critique and Practices”, Hampshire: Palgrave macmillan.
Williams, S. D. (2004), “Personality, attitude, and leader influences on divergent thinking and creativity in organizations”. European Journal of Innovation Management, Vol. 7, pp. 187-204.

 

 

Lucas Gurgel

Escrito por Lucas Gurgel

Um inquieto investigador dos porquês da vida, mirando problemas e inovações para uma vida mais funcional. Doido por viagens, heavy metal e criar pontes entre âmbitos aparentemente distintos da realidade.

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