A Ford recontratou ou contratou, nos últimos três anos, cerca de 350 engenheiros veteranos, ex-funcionários da própria empresa e profissionais vindos de fornecedores, para treinar e supervisionar sistemas de inteligência artificial que, sozinhos, não estavam dando conta do controle de qualidade nas fábricas. A montadora anunciou o movimento nesta semana, junto com o resultado do JD Power 2026 U.S. Initial Quality Study (IQS), no qual voltou ao topo entre marcas generalistas (152 problemas por 100 veículos, PP100) pela primeira vez em 16 anos, à frente de Nissan (156) e Buick (162).
O grupo, chamado internamente de “graybeards” (barbas grisalhas), lidera reuniões obrigatórias de revisão de qualidade e reescreve requisitos de projeto antes que componentes cheguem à linha de produção, segundo o diretor de operações Kumar Galhotra.
O que a Ford fez
O diagnóstico veio de Charles Poon, vice-presidente de engenharia de hardware de veículos. “Inteligência artificial é uma ferramenta fantástica, mas é tão boa quanto as informações usadas para treiná-la”, disse Poon à imprensa em 24 de junho. Em outra passagem, admitiu: “Equivocadamente, pensamos que, ao simplesmente introduzir inteligência artificial e ingerir os requisitos de projeto que tínhamos, isso produziria um produto de alta qualidade”.
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Poon também reconheceu que a montadora subestimou, nos anos anteriores, o peso da experiência de engenheiros que passaram por muitos ciclos de produto. “Não demos tanta atenção quanto deveríamos à experiência dos nossos engenheiros mais conhecedores”, afirmou. O retorno dos veteranos faz parte da estratégia explicitada pela empresa em seu release oficial sobre o IQS 2026.
Os números do IQS
O estudo da JD Power foi divulgado em 25 de junho e se baseia em 78.514 compradores e locatários de veículos modelo 2026, pesquisados nos primeiros 90 dias de posse. Quanto menor o PP100, melhor. O setor geral ficou em 175 PP100, o melhor resultado anual desde 1997. Entre marcas premium, Porsche liderou com 138 PP100.
A Ford saltou da 15ª posição entre marcas generalistas em 2023 para o topo em 2026, com três modelos premiados em suas categorias (F-150, Super Duty e Mustang), segundo a reportagem original da Bloomberg, reproduzida pelo InfoMoney em 28 de junho.
O lado B dos recalls
O resultado no IQS convive com um cenário menos favorável. A Ford segue entre as montadoras com mais recalls nos EUA em 2026 e projeta mais de US$ 1 bilhão em custos de garantia e materiais para o ano, segundo o release de resultados do primeiro trimestre de 2026 da Ford. Em meados de 2024, os recalls consumiam cerca de US$ 4,8 bilhões por ano da empresa, de acordo com a reportagem original da Bloomberg.
Galhotra classificou os recalls como “indicador defasado” de qualidade, já que refletem decisões de projeto tomadas anos antes. A empresa espera queda consistente nos modelos mais novos, mas o COO não cravou data: “Não posso dar uma data muito específica para quando essa virada vai acontecer”, afirmou.
Recontratações no detalhe
A estratégia da empresa nos últimos três anos incluiu recontratar ex-funcionários, contratar profissionais de fornecedores e promover gente internamente para o grupo dos “graybeards”. O CEO Jim Farley, em entrevista à Bloomberg TV, creditou o resultado a “trabalho duro à moda antiga dos nossos funcionários”, descrevendo essa dedicação como a diferença entre “uma Ford perfeitamente construída e uma Toyota aceitavelmente construída”.






































