Linha fina: Quarta edição da pesquisa AI at Work, com 11,7 mil respondentes em 14 mercados, aponta que o gargalo da inteligência artificial nas organizações migrou da tecnologia para a gestão.
A 4ª edição da pesquisa AI at Work, do Boston Consulting Group (BCG), revela que a inteligência artificial já está disseminada no dia a dia dos trabalhadores, mas a gestão corporativa não acompanhou o ritmo. O resultado é um descolamento claro entre o que as empresas dizem sobre IA e o que de fato entregam aos times que usam a tecnologia todos os dias.
Divulgada em 3 de junho pelo BCG e sintetizada pelo TrendsCE, a pesquisa ouviu 11.749 profissionais em 14 mercados. O retrato geral é de uso disseminado e gestão defasada: 74% dos profissionais de linha de frente já utilizam IA diariamente ou algumas vezes por semana, um salto de 23 pontos percentuais em relação a 2025. Entre os usuários frequentes, 42% economizam pelo menos oito horas por semana, o equivalente a um dia inteiro de trabalho. Em algumas áreas, o ganho é ainda mais expressivo: 60% em Marketing, 53% em TI e 50% em RH relatam essa economia de tempo.
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O gargalo migrou para a gestão
O dado mais desconfortável do relatório está no que as empresas fazem, ou deixam de fazer, com esse tempo liberado. Dois terços dos usuários regulares (66%) afirmam não receber nenhum direcionamento sobre como aproveitar as horas economizadas. Pior: mais da metade não chega a redirecionar esse tempo para trabalho estratégico, ele simplesmente se perde.
O BCG resume a virada da fase atual com uma conta simples: ter estratégia clara sobre IA gera um impacto 25 pontos percentuais maior nos resultados de negócio, enquanto oferecer ferramentas melhores, sem direção, gera apenas 5 pontos percentuais. A mensagem é direta: o gargalo migrou da tecnologia para a gestão, e esse é o diferencial entre empresas que capturam valor e as que apenas ampliam a adoção. É um retrato consistente com o que outras análises já indicavam, como esta matéria do Rapadura Tech que mostrou que o maior obstáculo da IA nas empresas é a gestão, não a tecnologia.
“O cenário atual exige uma revolução gerencial, não apenas tecnológica”, escreveram os coautores do relatório Vinciane Beauchene e Sylvain Duranton, do BCG X, no release da pesquisa. Para Duranton, a chamada “equação da alegria” se reescreve após o primeiro ano de uso, e o que sustenta o engajamento dos times é a clareza estratégica, não a novidade da ferramenta.
Brasil entre os líderes, mas com a mesma lacuna
A boa notícia para o público brasileiro é que o país está entre os mercados que mais puxam a adoção global. O BCG destaca que países do chamado Sul Global, entre eles Índia, Oriente Médio, Brasil e África do Sul, superam a média mundial no uso de IA por profissionais de linha de frente, enquanto Estados Unidos, França e Itália ficam abaixo dessa média.
O recorte fica mais nítido quando se olha para os agentes autônomos. Um levantamento do Tech Trends 2026 LATAM, da GFT Technologies, mostra que 18% das empresas brasileiras já integraram agentes de IA em fluxos de trabalho reais, contra 13% da média global. Ao mesmo tempo, o próprio BCG identificou que 61% dos profissionais acreditam que agentes podem assumir metade do trabalho nos próximos três anos, e 52% ainda admitem entender pouco sobre o que são, na prática, esses agentes.
Há um descompasso evidente: o uso cresce, mas a governança não. Metade das organizações pesquisadas não tem regras claras para gerenciar equipes formadas por humanos e agentes de IA, e a responsabilização sobre o que esses sistemas fazem aparece entre as principais preocupações para os próximos anos. No Brasil, o mesmo relatório da GFT aponta que, apesar da liderança em adoção, 87% das empresas ainda não acompanharam a transformação de fato.
O “paradoxo da alegria” nas lideranças
O relatório também traz um contraponto ao otimismo em torno da IA generativa. Dois terços dos usuários frequentes (67%) relatam maior satisfação profissional, mas 41% dos trabalhadores e 48% das lideranças dizem ter mais estresse mental. O BCG batizou o fenômeno de “paradoxo da alegria” (em inglês, joy paradox): a IA torna o trabalho melhor e, ao mesmo tempo, mais pesado.
Parte do efeito tem explicação prática. Quase metade dos respondentes dedica mais tempo revisando conteúdo gerado por IA, e 41% gastam mais horas com processos de decisão. Quando ferramentas assumem tarefas mais simples, sobra para humanos o trabalho mais complexo, e nem sempre há treino para isso: 72% veem mudanças nas habilidades exigidas, mas só 36% receberam capacitação adequada.
📄 Leia o release oficial do BCG com a pesquisa completa (em inglês)
O que se segue para CEOs e conselhos
A pesquisa do BCG é parte de uma série maior divulgada em 2026 que conecta a mesma tese: a IA já mudou o trabalho, e a gestão precisa mudar junto. Em outras peças, o BCG mostrou que 72% dos CEOs se consideram o principal decisor sobre IA nas suas empresas, o dobro do registrado em 2025, e que metade associa a própria estabilidade no cargo ao sucesso da agenda de IA. Ao mesmo tempo, conselhos e CEOs seguem alinhados na teoria e divididos na prática. Vale comparar com a estratégia de IA europeia na VivaTech 2026, que aponta caminhos regulatórios bem diferentes para o mesmo dilema.
O conjunto aponta um roteiro para o segundo semestre. Empresas que pretendem ir além da experimentação precisam responder a três perguntas antes de comprar mais uma licença ou treinar mais um modelo: qual problema de negócio a IA está, de fato, endereçando; como o tempo economizado pelos times vai ser reaproveitado; e quem responde, dentro da organização, pelo que um agente de IA decide. Sem respostas para essas perguntas, o mais provável é que o gráfico de adoção continue subindo, e o de valor, não.



































